El País
A promessa de criar milhões e milhões de empregos foi a que mais se
ouviu no segundo debate realizado entre os candidatos à presidência da
República nesta sexta-feira, 17, promovido pela Rede TV.
"Estamos com 27 milhões de pessoas sem emprego e é preciso recuperar a economia rapidamente", disse o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB),
em referência aos desempregados e subempregados no país, logo em sua
primeira intervenção no evento da RedeTV!, cuja dinâmica favoreceu a
interação entre os pleiteantes ao Palácio do Planalto.
Mais uma vez, a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
preso desde abril em Curitiba, sofreu com as circunstâncias de sua
situação: nem sequer um púlpito vazio que evidenciaria sua ausência foi
permitido por seus concorrentes — segundo a emissora, os debatedores
deliberaram contra o espaço, com exceção de Guilherme Boulos (PSOL).
No
encontro que registrou elevação na audiência de 0,9 ponto no Ibope
nessa faixa horária para 3,9 em São Paulo, os candidatos circularam pelo
estúdio e se olharam frente a frente para trocar questionamentos, ao
contrário do que ocorreu no debate da Band.
O maior enfrentamento nesses moldes ocorreu entre Marina Silva (Rede) e Jair Bolsonaro (PSL), quando o deputado questionou a ex-ministra sobre se ela é favorável ao porte de armas.
Depois de responder que não, Marina criticou a postura agressiva do concorrente.
"Você acha que pode resolver tudo no grito, na violência. Nós somos
mães, educamos nossos filhos a ser cidadãos de bem e você ensina para
nossos jovens a violência. Outro dia, você ensinou uma criancinha a
segurar uma arma com a mãozinha”, disse.
“Você sabe o que a Bíblia diz? A Bíblia diz para ensinar a criança no
caminho do bem e nesse caminho ela irá andar pelo resto da vida",
comentou, para ouvir aplausos da plateia na sequência.
Para além do embate Marina-Bolsonaro, o ex-governador Ciro Gomes (PDT) buscou
o confronto com Alckmin mais de uma vez, enquanto o tucano evitou
Bolsonaro, ao contrário do que se previa — Alckmin disputa votos no
mesmo eleitorado do líder das pesquisas de intenção de voto.
Cabo Daciolo (Patriota) repetiu a estridência e os louvores religiosos que lhe haviam rendido destaque no debate da Band, mas não conseguiu repetir um desempenho tão marcante.
O ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles (MDB) foi provocado
novamente por Boulos, mas pouco se destacou, assim como o senador Alvaro
Dias (Podemos-PR), que seguiu priorizando sua campanha contra a
corrupção.
Para o cientista político Eduardo José Grin, professor do Departamento de Gestão Pública da FGV
que comentou o debate para o EL PAÍS em tempo real, no geral Boulos se
saiu muito bem “à luz de sua estratégia de diálogo os eleitores de
esquerda”.
O candidato do PSOL apresentou várias propostas, o que o distinguiu dos demais, e emplacou o bordão dos “50 tons de Temer”.
Ciro Gomes também se saiu bem na avaliação de Grin, pois teve mais oportunidades de falar do que no primeiro debate.
“Ciro paz e amor foi mais didático que Alckmin e
obrigou-o a responder duas vezes. Ganhou em relação a Alckmin”, diz o
professor, para quem o ex-governador tucano foi menos hábil do que no
primeiro embate e não conseguiu encaixar sua narrativa de reformas.
“Não somou para quem postula o segundo turno”.
Segundo Grin, Bolsonaro, que lidera as pesquisas de intenção de voto
sem Lula, também não se machucou muito, apesar do embate com Marina.
Mais investimento na construção civil
Se permitiu mais embates, o formato não proporcionou respostas mais
aprofundadas. Em quase todas as perguntas permeadas pela crise
econômica, a resposta foi para promessas de criar postos de trabalho.
"Vamos refundar a República, substituir esse sistema corrupto e gerar
10 milhões de empregos e fazer o país crescer", prometeu Álvaro Dias,
repetindo o número exato da promessa que Meirelles já havia apresentado
no último debate.
Ciro Gomes foi mais modesto e prometeu apenas dois milhões de
empregos, voltando a destacar sua proposta de renegociar dívidas do SPC
(Serviço de Proteção ao Crédito) — ele também mencionou por três vezes
que o Brasil é o país que mais deixa empresas morrerem.
Questionada por um eleitor sobre o que faria para combater o
desemprego, Marina Silva disse que pretende recuperar o investimento
para aplicar na construção civil, “que é o que gera emprego mais
rápido" — Meirelles fez a mesma promessa.
Segundo ela, o turismo é outra forma de gerar postos de trabalho.
"Vamos construir 1,5 milhão de casas com placas solares", prometeu.
Em outro momento, a ex-ministra prometeu gerar "milhões e milhões de
empregos" por meio da "energia limpa, renovável e segura".
Já Bolsonaro disse que pretende escolher um time de ministros
independente "para buscar o bem comum”. Por mais de uma vez, titubeou e
gaguejou ao ser questionado sobre temas econômicos.
Lula e comitê da ONU
Desta vez, o PT não organizou uma transmissão paralela na Internet,
como fez no primeiro debate, para compensar a ausência de Lula e seu
vice e plano B, Fernando Haddad.
O dia havia sido de vitória ao menos tática para os petistas: uma decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU instou
o Estado brasileiro a garantir os direitos políticos de Lula e animou
suas redes de apoiadores e engrossou o coro dos críticos, nacionais e
internacionais, do processo legal contra o ex-presidente.
O Itamaraty disse em nota que a recomendação não era vinculante, mas a
discussão legal sobre o alcance da medida cautelar do órgão formado por
peritos independentes da ONU deve seguir nos próximos dias.
Seja como for, não houve qualquer efeito sobre o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Minutos antes do início do debate, a corte negou pela segunda vez participação do ex-presidente Lula no confronto.
A nova decisão provocou uma rediscussão do tema pelos debatedores,
que deliberaram pela retirada do púlpito reservado para o petista.
"Lula é um político preso. Essa encenação de candidatura é um
desrespeito ao país. Não há com admitir essa vergonha nacional", disse
Álvaro Dias ao abordar o assunto com Marina.
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