Bernardo Mello Franco
Lula não larga o osso. Seis dias depois de deixar a cadeia, o
ex-presidente deixou claro que não está disposto a ceder espaço na
esquerda. “O PT não nasceu para ser um partido de apoio”, justificou.
Em Salvador, Lula comparou o PT à locomotiva de um trem. “Sabe quem
polariza? Quem disputa o título”, disse. Ele lembrou que a sigla
polarizou todas as corridas presidenciais desde o fim da ditadura. “E
vai polarizar em 2022”, acrescentou.
Empolgado, o ex-presidente antecipou os planos para a próxima
eleição. Indicou que prefere lançar um novo poste a apoiar alguém de
outro partido. “Posso subir a rampa em 2022 levando o Haddad, levando o
Rui, levando outros companheiros”, disse.
Em seguida, ele ironizou as queixas de Ciro Gomes, que saiu injuriado
da disputa de 2018. Na visão do pedetista, o PT deveria ter desistido
de lançar candidato para apoiá-lo. Lula provocou: “Ele acha que o Bahia
vai amolecer para o Vitória?”.
O discurso de ontem frustrou quem esperava alguma mudança na cabeça
do ex-presidente. Aos 74 anos, ele continua decido a não ceder nenhum
milímetro a possíveis concorrentes. Quem não pedir sua bênção será
tratado como adversário.
O lulocentrismo barra o surgimento de novos líderes no campo
progressista. A esquerda brasileira orbita em torno do ex-presidente
desde 1989. Quem tenta emitir luz própria, como Eduardo Campos e Marina
Silva, acaba varrido para fora do jogo.
No fim de outubro, dirigentes de PDT, PSB, PV e Rede começaram a
articular uma frente alternativa ao petismo. A ideia é juntar forças nas
eleições municipais de 2020. Se funcionar, as quatro legendas voltariam
a se unir na corrida presidencial.
No discurso de ontem, Lula afirmou que “não existe no mundo nenhum
partido similar ao PT”. Em outra passagem, ele se recusou a reconhecer
os erros do partido. “Quem quiser que o PT faça autocrítica, faça a
crítica você”, provocou.
A plateia vibrou com a tirada. Bolsonaro também deve ter gostado.
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